
No começo achei que estava diante um outro idioma. Achei que iria escrever páginas e páginas com as gírias que eu aprendia com os meninos. Mas, na verdade, o repertório não é assim tão extenso. Ou será que eu é que não anotei tudo ainda?











A adolescência é treta, como dizem os meninos . Em quase todas as culturas essa fase da vida é marcada por tortuosos rituais de passagem e provas, muitas provas, que testam e desenvolvem a coragem, inteligência, perspicácia e a paciência necessária para se tornar um homem adulto. Teoricamente é isso.
E não estamos falando apenas de culturas primitivas, dos aborígenes ou dos índios. Hoje, no Brasil, mesmo sem querer-querendo, o estado e a sociedade promovem rigorosas condições para o jovem se tornar adulto. Você deve estar pensando no vestibular, não é mesmo? Sim, ele também é uma dessas provas cruéis da atualidade, mas existem outras. Uma delas é o que eu chamo de CADÓCA ADOLESCENTE, uma prova tão dura quanto um vestibular da FUVEST. Em termos oficiais estamos nos referindo a medida sócio-educativa, aplicada aos adolescentes em conflito com a lei, autores de crimes, que não podem ser julgados e condenados como adultos mas também não podem ficar soltos por aí causando enormes prejuízos. São presos em uma espécie de cadeia, é daí a origem da palavra CADÓCA. Obviamente, não sou eu o autor desse termo, que na verdade é uma gíria.
Normalmente quem passa pela CADÓCA ADOLESCENTE não passa pelo vestibular. Numa sociedade desigual, rituais de passagem desiguais, certo? Certo nada, mas quem sou eu pra julgar? Não quero julgar nada não. Aqui, nesse espaço interativo pretendo compartilhar minha experiência antropológica , minha visão das coisas e das pessoas de lá de dentro. A insólita tentativa de compreender o mundo desses meninos que não passam na universidade, privados de liberdade, desligados da cidade, dando um descanso pra sociedade, cuja história de vida, na verdade, parece uma letra de RAP.
Se eu fosse um rapper, certamente faria um rap sobre esse tema, embora isso seja bem comum. Mas eu não sou rapper, nem MC, só sei desenhar, faço história em quadrinhos, e agora, trabalho com arte e cultura lá dentro, ensinando os meninos a desenhar, a criar histórias, essas coisas que não tem nada a ver com cursos profissionalizantes. Sou parte do osso duro que eles têm que roer, mesmo que desenhar pareça fácil, muito mais fácil que estudar para o vestibular. Eu acho, mas não deve ser. Desenhar é treta mano, é o que eles dizem, ainda mais estando preso, atrás das grades e muros, sob severo esquema de segurança, uniformizados e de cabeça raspada.
É uma situação difícil mesmo, uma prova e tanto. Mas não é na dificuldade que encontramos soluções e novas idéias? Não são os conflitos e as guerras geradores de engenhosas invenções? E por incrível que pareça, a arte, a criatividade e a reflexão acontecem de modo surpreendente lá dentro. Se isso não fosse fato eu não estaria vivenciando essa experiência lá. E não me atreveria a divulgar nada disso aqui.