quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Dicionário de gírias


No começo achei que estava diante um outro idioma. Achei que iria escrever páginas e páginas com as gírias que eu aprendia com os meninos. Mas, na verdade, o repertório não é assim tão extenso. Ou será que eu é que não anotei tudo ainda?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Você gostaria de encontrar esse garoto na rua?


Você gostaria de encontrar esse garoto na rua e olhar nos olhos dele? Admitiria que ele é uma ameaça? Não só pelo olhar oblíquo de mameluco mas pelo seu tom de voz, seu dialeto, sua pouca idade e juízo, seu jeito de vestir, de andar, mesma espécie daqueles assaltantes de banco, fotografados pelo sistema de segurança, esse tipo periférico que carrega a revolta e o ódio contra a classe média, você sentiria medo dele caso encontrasse-o na rua, sem nenhum policial por perto, não é mesmo? Ele é pequeno e magro como um escorpião, seria burrice não desviar dele no passeio público. Se você é valente eu não sou, eu tenho medo sim. E não me atreveria encarar esses olhos terríveis se ele não estivesse atrás das grades e eu protegido com minha patética armadura de professor de histórias em quadrinhos.
Ao retratar esses olhares tento compreender e representar o que estou vendo de fato. A prova dos nove é o reconhecimento do retratado. O modelo tem que aprovar o desenho, se não fica feio pra mim.
Nesse retrato acho que acertei por que ganhei um sorriso dele. Além dos dentes, notei as sombrancelhas desarmadas e a cara ilumida por alguns segundos. Queria ter memória e talento suficiente para retratar essa expressão fugaz de surpresa no lugar dele mesmo. Mas, quem é ele, ele mesmo?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A Mãe e o Menino


Não era sábado, dia de visita. Era um dia de semana a tarde e eu estava na unidade. Encontrei a mãe e o menino juntos, no corredor, depois da minha aula. Era a primeira vez que eu via a mãe visitando um filho. Ela não podia vir no sábado e ele precisava muito dela para chorar e soluçar em seu ombro. Não ví a mãe chorando. Não alí. Ela precisa ser forte, suponho. Uma rocha. Perguntei se eu poderia desenhá-los rapidamente, eu nunca havia sido tão intrometido. Esperando um "não" como resposta, me atrevi mesmo, pois a cena valia a pena. Mas, naquelas condições os dois estavam tão indefessos que não poderiam negar nada. Era uma covardia da minha parte e além do mais um estorvo, invadindo a intimidade e consumindo o pouco e precioso tempo da visita. Por isso tratei de desenhar o melhor e mais rápido que pude.
A mãe, vestida com a roupa da visita, a mesma roupa dos meninos, camiseta de algodão calça de moleton e chinelos. Suas roupas ficaram guardadas lá embaixo, na portaria, onde foi revistada. O menino grande e pescoçudo, quase um homem feito, não se parece com ela.
Se posicionaram como se estivessem tirando uma fotografia mas não se desgrudaram as mãos e as pernas. Pensei que talvez eu não estivesse atrapalhando tanto. Assim mesmo, acelerei.
Foram uns 1o minutos estáticos e silênciosos. Quando terminei, mostrei aos dois e eles sorriram e me agradeceram. Prometi uma cópia do desenho e desejei sorte e força para os dois.

domingo, 27 de setembro de 2009

Tranca


TUDO QUE TRANCA TRINCA, essa frase eu li outro dia num muro. Fique com isso na cabeça. O ferro soldado no metal é até bonito olhando de perto. Olhando de perto quase tudo é bonito.
Deixei a página laranja ao lado. Acho que vou manter assim.

sábado, 26 de setembro de 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Deus Televisão


Os meninos permanecem no pátio enquanto o refeitório está sendo preparado para o jantar. Sentados, em silêncio, sob os pés do grande Deus caixa-de-eléctrons. Estão todos com a cabeça erguida. A cabeça é um pote sem tampa. As imagens entram, se misturam aos sons. Os pensamentos, os olhos, os ouvidos, o brilho dos fotóns, tudo em movimento. O grande Deus microndas-de-informação exige um sacrifício. Ele é fiel e onipresente. Está em todos os lugares e estará amanhã e depois e depois. No bar e lar. Momento da comunhão entre a família e o filho pródigo. O pote se enche de luz e se derrama no espaço. A memória evapora, teletransportada via satélite, a memória é uma nuvem e chove nas periferias. O cérebro é um despacho na encruzilhada radio-sinestésica. Trovões e vozes artificiais lembram o quanto todos são pequenos. Bundas quadradas no chão, as costas estão doendo. No ar, Pokemón.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O mistério do pijama cor-de-rosa-quando-foge


Na unidade onde eu trabalho a cor azul-marinho é padrão. É a cor do moletom usado por todos os meninos. Eles passam o dia todo vestidos assim. Quando faz muito calor, usam bermuda e camiseta branca de algodão. Mas quase todo dia é calça e blusa de moletom. Se faz muito frio, usam um moletom em cima do outro. E meias brancas dentro de havaianas azuis. Dá impressão que todo mundo acabou de acordar e ainda está de pijamas. Eu diria que é um uniforme bem confortável, mas vamos voltar as cores.
A cor padrão é azul marinho, mas, de 100 pijamas 01 é de outra cor. Uma cor que eu não sei o nome, essa que eu tentei reproduzir no desenho acima, um magenta escuro, tem gente que chama de "bordô" eu realmente não sei dizer, mas é mais ou menos essa cor aí, considerando toda a variação de pixels e calibragem do seu monitor. E é claro que eu me pergunto: POR QUÊ essa diferenciação entre os uniformes.
Pergunto para garoto que veste a cor, meu aluno, que posou para o retrato. Ele não faz idéia mas gosta do pijama rosa-choque-encardido. Se pudesse escolher usava todo dia. Sim, porque todos os pijamas são de uso coletivo, ninguém escolhe a cor, saiu da lavanderia, é o primeiro que estiver dando sopa. Ou seja, usar o pink-ferrugem é uma questão de sorte.
Ficamos pensando e levantando hipóteses para justificar esse desvio de padrão:
-A cor estava em liquidação, por isso existem tão poucas peças, ou...
- Alguém comprou um pequeno lote errado, ou...
- Inicialmente essa cor foi destinada para diferenciar os garotos mais terríveis mas vendo que essa tática só piorava o convívio abandonaram a idéia, ou...
- Um estilista com pós-graduação em cromoterapia inventou esses uniformes para "dar uma quebrada na monotonia visual" ou...

Vai saber... Esse é um dos mistérios insolúveis da cadóca dos adolescentes.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Cicatrizes


Não precisamos de lente de aumento para perceber as cicatrizes que os meninos levam no corpo. São marcas grandes e feias, algumas impressionantes, exibidas com um certo orgulho, troféu da coragem e do risco. Os meninos em geral gostam de suas cicatrizes e não se importam de falar sobre elas. Pelo contrário. Por isso, as vezes, eu pergunto a história de alguma cicatriz, só pra ver a capacidade do cara narrar histórias e refletir com ele sobre a sorte e o azar, se vale a pena correr tanto risco.
O menino do desenho tomou um tiro na perna. A tíbia, osso da canela, foi pro espaço. No momento ele foi retratado com essa traquitana ortopédica, não dá pra ver a cicatriz ainda. Pode ser que ele nem tenha cicatriz. A perna dele aguarda uma porção de cirurgias e se o médico for caprichoso, deixará a canelinha dele sem marcas. Mas, pela gravidade do estrago, ele nunca mais terá a perna 100%. A tíbia dilacerada receberá um enxerto da costela, uma frágil cola de osso. Pra endurecer levará meses. Jogar bola, só se for no gol.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Santa Tatoo


Esse desenho eu copiei de uma tatuagem, muito bem feita por sinal, que cobria por completo a parte superior da mão de um garoto de 17 anos. Sua função principal é cobrir uma outra tatuagem tosca, feita aos 13, um cinco-salomão, depois eu explico o que é cinco-salomão, hoje vamos falar da santa. O que me intrigou nessa figura é o fato dela não ter pupilas. Isso dá a ela um ar misterioso e fantasmagórico, como se ela enxergasse o além, como se ela estivesse em transe, como um oráculo prestes a desvendar o futuro. As imagens de santas exercem fascinio entre os meninos presos, principalmente as nossas senhoras da vida. Mesmo com a proliferação dos evangélicos que abominam as imagens. Percebo que a fé é algo bastante arbitrário, e como não seria?
É que as santas representam amor e perdão. Elas são mães místicas, puras e perfeitas. Seu coração arde, ela sofre pelos filhos terríveis mas estão sempre de braços abertos, cheias de amor e perdão. Amor e perdão INCONDISCIONAL. Não deve existir consolo maior para quem cometeu um crime e está preso. E ainda pode ser chamado de "menino".

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

de pote baixo


Pote significa cabeça assim como cadóca significa presídio. Logo, "de pote baixo" significa "de cabeça baixa" (eu nem sei pra que essas aspas, enfim...)
Essa posição eu vejo direto e não é necessariamente um castigo. É um hábito, uma maneira de esperar. Nesse caso, esses dois meninos estavam chegando na unidade, (repare que o da esquerda está usando tênis) e aguardam entrar oficialmente na rotina, com as roupas e o corte de cabelo padronizados.

sábado, 19 de setembro de 2009

grades deslizantes


Chego na unidade, o guarda me vê e puxa mecanicamente a grade de ferro deslizante. Faz um barulho pesado de aço deslizando em um trilho. Entro na primeira jaula e atrás de mim ouço o mesmo barulho de ferro, da grade se fechando. A próxima grade está fechada. Só vai se abrir quando a de trás estiver completamente fechada. Essa operação é manual, do guarda, sujeito de uniforme e bonézinho azul, que passa passa o tempo todo preso na jaula ao lado, fazendo o abre e fecha. Essa operação leva uns 10 segundos, tempo suficiente para experimentar uma breve claustrofobia. Durante esse tempo eu sempre me lembro daquelas jaulas que os cinegrafistas usam no fundo do mar para filmar tubarões famintos.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Eu e o mestre Caranguejo


Ele é o mestre Caranguejo, tem mais de 60 anos mas parece um menino. Ele tem disposição, bom humor. Ele se identifica bastante com os meninos por que sua juventude não foi nada fácil. Ele é um baiano em São Paulo, desgarrado da terra e da família. Ele passou por poucas e boas e foi salvo pela capoeira. Ele ensina capoeira não como arte e cultura. Ele oferece uma forma de salvação também. Ele diz que sua caneta é o berimbau. Ele me apelidou de históriiam e'quadrim.
Quero seguir o exemplo dele e envelhecer assim, como um mestre capoeirista.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Espera


Quando os meninos chegam da rua esperam nesse banco. Hoje só haviam dois, as vezes tem uns quatro, mas a média é dois mesmo. Estão com a roupa e o corte de cabelo original e usam tenis. Esse banco fica ao lado da minha sala. Antes e depois da aula eu fiquei alí em pé, desenhando rápido os dois. O de cá deu uma olhadinha mas depois voltou a posição-estátua. Provavelmente eles serão futuros alunos, vamos ver. Geralmente eles esperam um bom tempo sentados aí, nesse banco de madeira. Quando digo um bom tempo é praticamente o dia todo. E é assim, em silêncio, tipo de castigo. Quando eu era criança na escola quando ficava de castigo a professora chamava isso de "pensar". Pensar no que eu havia feito de errado. Mas eu só pensava em sair dalí.
Dessa vez eu não mostrei o desenho, geralmente eu mostro. Eles não devem ter entendido nada.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Surdo-Mudo


Um garoto surdo-mudo apareceu na aula. Por incrível que pareça ele conversava muito com os meninos, através de gestos, sempre tumultua a aula. Que tal um retrato, perguntei pra ele com gestos. Ele concordou e durante 10 minutos a sala seguiu em silêncio ou quase.
Depois eu fiquei pensando o que ele aprontou pra estar preso. Ele nunca vai me contar esse fato.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Nerverland

A adolescência é treta, como dizem os meninos . Em quase todas as culturas essa fase da vida é marcada por tortuosos rituais de passagem e provas, muitas provas, que testam e desenvolvem a coragem, inteligência, perspicácia e a paciência necessária para se tornar um homem adulto. Teoricamente é isso.

E não estamos falando apenas de culturas primitivas, dos aborígenes ou dos índios. Hoje, no Brasil, mesmo sem querer-querendo, o estado e a sociedade promovem rigorosas condições para o jovem se tornar adulto. Você deve estar pensando no vestibular, não é mesmo? Sim, ele também é uma dessas provas cruéis da atualidade, mas existem outras. Uma delas é o que eu chamo de CADÓCA ADOLESCENTE, uma prova tão dura quanto um vestibular da FUVEST. Em termos oficiais estamos nos referindo a medida sócio-educativa, aplicada aos adolescentes em conflito com a lei, autores de crimes, que não podem ser julgados e condenados como adultos mas também não podem ficar soltos por aí causando enormes prejuízos. São presos em uma espécie de cadeia, é daí a origem da palavra CADÓCA. Obviamente, não sou eu o autor desse termo, que na verdade é uma gíria.

Normalmente quem passa pela CADÓCA ADOLESCENTE não passa pelo vestibular. Numa sociedade desigual, rituais de passagem desiguais, certo? Certo nada, mas quem sou eu pra julgar? Não quero julgar nada não. Aqui, nesse espaço interativo pretendo compartilhar minha experiência antropológica , minha visão das coisas e das pessoas de lá de dentro. A insólita tentativa de compreender o mundo desses meninos que não passam na universidade, privados de liberdade, desligados da cidade, dando um descanso pra sociedade, cuja história de vida, na verdade, parece uma letra de RAP.

Se eu fosse um rapper, certamente faria um rap sobre esse tema, embora isso seja bem comum. Mas eu não sou rapper, nem MC, só sei desenhar, faço história em quadrinhos, e agora, trabalho com arte e cultura lá dentro, ensinando os meninos a desenhar, a criar histórias, essas coisas que não tem nada a ver com cursos profissionalizantes. Sou parte do osso duro que eles têm que roer, mesmo que desenhar pareça fácil, muito mais fácil que estudar para o vestibular. Eu acho, mas não deve ser. Desenhar é treta mano, é o que eles dizem, ainda mais estando preso, atrás das grades e muros, sob severo esquema de segurança, uniformizados e de cabeça raspada.

É uma situação difícil mesmo, uma prova e tanto. Mas não é na dificuldade que encontramos soluções e novas idéias? Não são os conflitos e as guerras geradores de engenhosas invenções? E por incrível que pareça, a arte, a criatividade e a reflexão acontecem de modo surpreendente lá dentro. Se isso não fosse fato eu não estaria vivenciando essa experiência lá. E não me atreveria a divulgar nada disso aqui.





















A evolução de um desenho as vezes leva meses. Primeiro eu fiz a cena mais ou menos como eu ví, um momento de televisão no refeitório. Depois, muito depois, acrescentei esses dois tótens, dois monolitos de interesse da maioria: mãe e cigarros. E naturalmente o desenho foi ficando sujo, encardido com o próprio grafite. E o meio foi rasgando devido o abre e fecha do caderno. No dia que eu comecei esse desenho ouvi alguém dizer que alí era Neverland, a Terra do Nunca. Poderia ser a tripulação de um navio pirata, mas são só garotos.