
Você gostaria de encontrar esse garoto na rua e olhar nos olhos dele? Admitiria que ele é uma ameaça? Não só pelo olhar oblíquo de mameluco mas pelo seu tom de voz, seu dialeto, sua pouca idade e juízo, seu jeito de vestir, de andar, mesma espécie daqueles assaltantes de banco, fotografados pelo sistema de segurança, esse tipo periférico que carrega a revolta e o ódio contra a classe média, você sentiria medo dele caso encontrasse-o na rua, sem nenhum policial por perto, não é mesmo? Ele é pequeno e magro como um escorpião, seria burrice não desviar dele no passeio público. Se você é valente eu não sou, eu tenho medo sim. E não me atreveria encarar esses olhos terríveis se ele não estivesse atrás das grades e eu protegido com minha patética armadura de professor de histórias em quadrinhos.
Ao retratar esses olhares tento compreender e representar o que estou vendo de fato. A prova dos nove é o reconhecimento do retratado. O modelo tem que aprovar o desenho, se não fica feio pra mim.
Nesse retrato acho que acertei por que ganhei um sorriso dele. Além dos dentes, notei as sombrancelhas desarmadas e a cara ilumida por alguns segundos. Queria ter memória e talento suficiente para retratar essa expressão fugaz de surpresa no lugar dele mesmo. Mas, quem é ele, ele mesmo?

ponto crucial: armadura de professor
ResponderExcluirFATO