sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Campeão



É um daqueles meninos gordos da cintura pra baixo, corpo em formato de jaca. Deve ser assim desde criança. Deve ter sido aquele bebê alimentado com maizena ao invés de leite materno. Criança pobre que não conhece fruta, que vê na comida artificial, industrializada e barata o melhor presente de aniversário ou natal. Comida doce e gordurosa. Refrigerante e pouca atividade física. Um menino gordo e pobre com um olhar inocente, meio perdido. Queixo e orelhas desproporcionais que me lembram alguém, um antigo colega que tive no colegial, um cara muito simplório que morava numa cidadezinha vizinha, na região rural do interior do estado. Seu sotaque era bem caipira, parecia um fazendeiro, criador de porcos e gansos que cultivava em sua propriedade grandes abóboras alaranjadas, melancias e rabanetes. É difícil imaginá-lo transgredindo alguma lei. Ele é muito quieto e desenha como uma criança. Mas no ping-pong, ouvi dizer que é imbátivel. Ninguém tira ele da mesa. Acho que é por isso que os outros meninos o respeitam como se ele fosse um campeão.

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