quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Professores Veteranos


Nessa mesa ouvi histórias de terror que me amadureceram precocemente. Estamos na sala de professores de uma das unidades de internação provisória, no topo das escadas, numa espécie de sotão. Jantei lá em cima várias vezes, entre a aula da tarde e da noite, e ouvi atentamente várias situações mirabolantes narradas pelos meus colegas de unidade, professores veteranos, essas duas destemidas criaturas, retratadas no desenho acima.
Certamente eu teria enloquecido, mas eles não. Estão lá, firmes e fortes no corpo pedagógico, trabalhando diariamente com os meninos. Ele em educação física e ela em artesanato.
O cotidiano deles é tranquilo, hoje. Antigamente era bem mais difícil. Foi o que eu ouvi e acredito. -Hoje em dia está muito melhor. Ainda tem muito que melhorar mas evoluiu muito, muito.

Os dois estavam lá enquanto eu assistia pela televisão, as notícias das mega-rebeliões, o fogo nos colchões e os meninos em cima dos telhados com facas de ferro nas mãos e tarja preta nos olhos. Eles estavam lá e eram reféns, moedas de troca entre o diretor da unidade e os "faxinas", lideres dos meninos presos. Eles trabalharam em várias unidades e assistiram a ira adolescente, a violência, a total falta de ordem e pânico. lá Em cima do telhado, vários metros longe do chão, ouviram mais de uma vez a pergunta: - Já viram funça voar? "Funça" é o adulto responsável pela segurança e disciplina na unidade, alvo de fúria, inimigo natural do menor infrator. (eu acho que existe uma projeção pai-filho entre os dois, um complexo de Édipo, Freud explica tanto ódio)
Eles assistiram gerações de meninos, antes da invenção da garrafa PET. Diariamente estão nessa labuta, com os meninos. Presos.
-Se vocês pudessem traçar um perfil psicológico dos meninos, da origem social...
-Tem de tudo. Todo tipo de menino vem pra cá. É sempre igual mas diferente. Como uma cobra de 7 cabeças, corta uma e nasce 4 no lugar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário