
Cabelo raspado, usando moleton, meia e chinelo. Um mar de cabeças de todos os tamanhos olham na mesma direção. A Avenida Paulista está tomada deles.
- estamos livre!
- o mundão é nosso!
Por todo canto, serpenteando a multidão de meninos, anúncios da Nike, Adidas, Motorola, Honda, Ecko, Ciclone, Oakley e outras marcas jovens.
- já raiou a liberdade graças a Deus.
- Deus é uma nota de 100
Meninos são soldados voltando da batalha. Um reconhece o outro. Estão emocionados.
-você não é do Capão Redondo?
-eu tava em Franco da Rocha, na 28, lembra de mim?
-não, não, eu passei pela 10 e depois pela 36, no Brás, encontrei seu irmão duas vezes..
- manda um salve quando você encontrar ele.
- nem acredito que eu tô aqui fora!
- graças ao nosso advogado, o cara é zica!
- só.
- é aquele maluco ali montado no elefante que libertou todo mundo de trás das grades!
Ele aparece montado em um rinoceronte patrocinado pela Ecko. É tão grande quanto um carro alegórico, mas o animal está vivo. Está vestido igual aos outros mas segura um microfone. Ele é igual aos outros na aparência. O rinoceronte da Ecko avança lentamente dentro da multidão.
-Ele que tá conduzindo o bonde da nossa liberdade?
-Ouvi dizer que é.
-O cara deve se achar Jesus Cristo...
-Ouvi dizer que ele é mó firmeza.
Todos estão se abraçando, conversando, rindo e chorando. Não percebem a presença do líder, que lentamente se posiciona no centro do mar de cabeças raspadas. Levanta o microfone em saudação coletiva. Uma onda poderosa responde seu gesto.
-Se ele vier com arrogância pra cima de mim não vou deixar barato não! O que ele quiser eu quero em dobro!
-Se liga, faz uma na voz aí.
-Acho que ele vai mandar a idéia...
O silêncio impera. Chegou a hora do garoto no rinoceronte falar. De costas, podemos ver sua silhueta coberta de sombras. Os meninos emitem luz sobre ele.
- Solta a voz moleque!
EU... ?
O rosto dele está em pânico, como se ele não soubesse o que dizer. Como se ele tivesse prestes a dar uma notícia terrível ou confessar algum segredo pessoal muito, mas muito comprometedor. Sua expressão confessa o medo diante aquele exército de gêmeos. Alguma coisa não está nada bem. Mas ninguém percebe. Parecem crianças diante do Papai Noel, com um sorriso no rosto e um brilho nos olhos, esperando.

SÓ QUEM JA TIRO SABE COMO É
ResponderExcluir