terça-feira, 13 de outubro de 2009

Obturação em dragão


Ele entrou na sala de aula com cara de dragão.
-Leva mal não senhor, mas eu estou com dor de dente, não consigo fazer nada.
E debruçou na carteira. Cutuquei, ele levantou a cabeça com a cara mais amarga. Como se fosse um especialista no assunto, pedi pra ele mostrar o dente e AAAAAAHHHHH, abriu o bocão sem cerimônia para provar que era sério. Um molar destruído por uma cárie preta. Lembrei da minha pior dor de dente, a dor que a gente nunca lembra direito quando não está sentindo, mas faz idéia. O dentista não fica diariamente na unidade.Tomar um analgésico na enfermaria? Improvável pra não dizer impossível. Remédio só se a coisa for grave. Se a coisa for grave, levam no pronto-socorro.
Não gosto de ver ninguém sentindo dor. Queria fazer alguma coisa. Sempre tenho comprimidos de dipirona, analgésico companheiro desde quando peguei dengue, pensei em dar um comprimido escondido. Não ia curar mas ajudaria durante algumas horas. Será?
Mas isso poderia causar sérios problemas, principalmente se ele for alérgico, dou ou não dou? Com o estômago vazio, o comprimido pode bater e fazer um buraco, uma úlcera hemorrágica, já ví isso acontecer. A dipirona está muito fácil, um comprimido ao meu alcance. O garoto ficou em paz, a aula inteira debruçado, ruminando sua dor, sem dar um pio. Fui embora pensando na merda que um comprimidinho pode causar naquela situação. E em estar preso sentindo dor. E na liberdade precária que provoca esse tipo de cárie. E nos ricos que gastam dinheiro com cerca elétrica, alarme e camera de vigilância, devem achar pouco sofrimento uma dor de dente.

Na aula seguinte a cara dele já estava bem melhor, participou da aula e tudo. Perguntei do dente e ele disse que parou de doer sozinho. Deixa ver... AAAAAAHHHHH... Vixe, tá feio ainda heim? Mais um pouco... AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH...
Fiz o desenho do dente podre como se estivesse obturando-o. Minha patética armadura de professor de histórias em quadrinhos permite tamanho atrevimento. Ele ficou surpreso com o tamanho da cárie. Não tem nenhum espelho na unidade de internação provisória. Um dente a menos, pode crer, ainda bem que não é na frente, que sorte!
Na semana seguinte ele perdeu o molar para sempre.

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