sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Controlando o tédio


Na porta da unidade tem um guarda. Ele não é truculento, nem está armado. Ele apenas confere meu crachá e abre o portão de ferro. Boa tarde, boa tarde. Eu entro e ele fica lá esperando o próximo entrar. Ele fica boa parte do tempo parado. As vezes ele senta, mas no geral fica em pé, olhando pela pequena grade a rua. Durante um platão de 12 horas ele está tão preso quanto os meninos, abrindo e fechando um portão da unidade. Com o tédio sob controle, está satisfeito por que tem um emprego e ocupa um lugar honesto no mundo de hoje.
O lugar que a gente ocupa no mundo, aquilo que perguntavam pra gente "o que você vai ser quando crescer?" Normalmente a gente respondia o nome de uma profissão, que podia ser real ou não, só pra atender a expectativa dos adultos. Mas a pergunta não é essa. A pergunta, ao pé da letra é "o que você vai SER quando crescer"?
SER alguém ou alguma coisa. No final das contas a gente cresce e nem entende isso direito, esse negócio de SER alguém. Eu me lembro de ter medo de ser alguém que eu não queria. E eu não queria ser a maioria dos adultos que eu conhecia. Eu tinha medo de quase todas as profissões. Eu não entendia, por exemplo, como um homem era capaz de dirigir um ônibus pelas ruas sem bater nos outros carros. Não me imaginava lidando com documentos importantes, papéis que não podiam ser perdidos, papéis que cabiam em um envelope e representavam coisas grandes como casas ou fazendas. Tinha medo de errar minha própria assinatura, já que ela tinha que ser sempre idêntica, me imaginava arruinando escrituras e perdendo bens muito caros.
E tinha aquele sujeito que curava as pessoas, o médico, aquele que ajuda as mães no parto e que curam as pessoas com remédios. Deve ser por isso que toda mãe acha uma boa idéia ter um filho médico. Mas pra mim não dava. Meu primo mais velho já tinha essa idéia e eu deixaria as pessoas morrerem nas mão dele. Acho que essas profissões que exigem muita responsabilidade me assustavam.
Durante um tempo pensei em ser carpinteiro. Fazer móveis e brinquedos de madeira. Eu poderia construir tudo que eu quissese com madeira. Mas havia um senhor que morava perto de casa que não tinha um braço. Ele era o zelador do parquinho onde eu brincava, conhecido como Seu Joaquim Sem-Braço. Na minha fantasia infantil ele havia perdido o braço em uma marcenaria, cortando madeira com uma serra elétrica. Carpinteiro eu não seria, nem a pau.
E assim fui crescendo e achando que ocupar o lugar no mundo não era algo muito fácil. Não era só uma questão de escolha. Havia uma porção de forças que te colocavam e te tiravam do sonho. E havia o sonho dos outros, as expectativas dos outros na gente. Meu pai, por exemplo, não sabia desenhar nada mas gostava muito do assunto. Acho que ele tentou aprender e não conseguiu. Não sei o quanto se esforçou mas isso certamente é uma frustração dele. Quando percebi isso, fui em frente e esse acabou sendo o meu lugar no mundo. Ser melhor que meu pai em alguma coisa.
Eu acho que os meninos em geral sofrem esse mesmos conflitos existenciais. Controlar o tédio, aprender a fazer coisas e conciliar as ilusões com o arroz e feijão.

3 comentários:

  1. lembrei do dia que cheguei no apartamentinho da frei caneca, totalmente em crise com o ser gente grande, com o fazer coisas impalpáveis da comunicação.... que queria fazer coisas que realmente fossem uteis e que iria portanto fazer novo vestibular, para medicina. vc começou a estrebuchar na minha frente encenando uma criança que morreria nas minhas mãos se eu realmente virasse pediatra, se eu queria aquilo... lembrei disso lendo o texto... e penso sempre no que ser e acho que tudo inclui riscos né? o seu "sem responsabilidade" inclui entrar num lugar perigoso para dar aulas para meninos sairem dali entre os traços, por uns minutinhos, liberdade... acho muito lindo - lembrei agora daquela cena do prisioneiro da grade de ferro em que o cara faz um zoom, por entre as grades e vê os fogos de artifício do ano novo, livre, por um minuto, livre...
    você é uma gente grande muito boa, jesus!

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  2. não há mais responsabilidade do que sonhar junto...junto com esses meninos. De dentro da própria pele que encontra os rostos, histórias e monstros que esses meninos carregam, como representantes não só deles próprios mas do mundo que esconde em vão o que não se quer ver. não é nada fácil ser médico da alma!
    Mas responsa mesmo é ser baixista da banda Macabea...aquela que quer divertir não menos que um país....hahaha (começando pelas esposas e filhos é claro)
    Responsa é escrever tão lindo assim!

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  3. Tu relato es tan sincero y profundo que no puedo evitar reflexionar cuando lo leo. Esa repetida pregunta: Qué vas a ser cuando seas grande...Cuántas veces la habremos escuchado! Pregunto: Acaso ya no somos desde el primer momento de existir? No somos seres humanos?
    Siendo los únicos seres de la creación con libertad absoluta crecemos y podemos elegir lo que vamos a HACER pero siempre seremos humanos.
    Tal vez lo que nos ocurre tratando de responder esa pregunta y en nuestra obsesión por ser alguien (cuando ya lo somos) terminamos por olvidar nuestra esencia y en consecuencia ya no sabemos actuar como lo que somos: seres humanos. No basta con ser nosotros mismos?
    Como adultos ¿no tenemos esa gran responsabilidad de despertar la conciencia de niños y adolescentes recordándoles que ya son alguien?
    Entonces no sería mejor preguntar: Qué querés HACER cuando seas grande?
    No sería un mundo mejor si no olvidamos nuestro auténtico SER?
    Sin duda, lo sería...y tu trabajo con estos chicos ayuda a construir ese mundo.

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